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Ícone do frevo, Spok lança “Raízes, após entender sua relação com Camarões 


Por:

Revista NOIZE

Fotos: José de Holanda

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Spok dispensa apresentações. Maestro, produtor, cantor e compositor, o artista é um dos maiores nomes do frevo. Deixou sua marca na música popular, em especial pela rica parceria com Lenine. Após duas décadas à frente da SpokFrevo Orquestra, o pernambucano lança Raízes (2026), seu projeto mais experimental.

No álbum, lançado no fim de março, Spok se distancia do estilo que o consagrou para explorar outras sonoridades ligadas à tradição nordestina e afro-brasileira. “O disco nasce como resultado direto de minha pesquisa sobre linhagem materna, que me conecta ao povo Tikar, originário de Camarões, no continente africano”, explica o artista. 

As escolhas rítmicas, como explica Spok, se deram a partir da ideia central de ancestralidade. Ao dar play em Raízes espere muita percussão e maracatu, mas também é um som que transita, com naturalidade, para o lado moderno, com rap e até pop. Já nas composições, o artista explora espiritualidade e o passado, com homenagens a Xangô.

Com produção própria, o álbum ainda conta com colaborações de Lenine (“Kaô”), Chico César e Thulio Xambá (“Bela África), Zeca Baleiro (“Tikar”), Ylana (“Verde Chão”), Grupo Bongar (“Raízes”) e Maciel Melo (“Aboio de um Vaqueiro”).

Confira Raízes faixa a faixa:

"Kaô": foi composta em parceria com meu filho Nilo Dias (Nilinho). Lembro-me de que ele me mostrou uma ideia , e esse riff me levou a uma melodia, a uma letra etc. Xangô é um orixá das religiões de matriz africana, associado à justiça, aos raios e ao trovão, e considerado justo e bondoso. É bem comum que os adeptos dessas religiões usem a saudação “Kaô Kabecilê”, que quer dizer “Venha saudar o Rei”, como forma de demonstrar seu respeito e devoção a Xangô. E nessa canção convidei Lenine - que é um artista com quem inclusive temos um espetáculo juntos e de quem sou muito fã. Um detalhe é que meu filho Nilinho sugeriu a participação de Lenine nesta faixa, que, diga-se de passagem, arrasou!

"Bela África": é uma homenagem a Mandela, pois, enquanto esteve preso, ele se inspirou num poema chamado “Invictus”, de William Ernest Henley. Esse poema ajudou Mandela a suportar, por vinte e sete anos, o cativeiro, onde ele foi condenado por sua luta contra o apartheid. E essa história eu achei muito inspiradora. Pra minha felicidade, Chico César faz participação especial nesta canção, uma linda e emocionante participação!

"Tikar": no teste de DNA de minha ancestralidade, deu que sou 100% do povo Tikar. Existem vários grupos étnicos em Camarões, e há um grupo étnico chamado Tikar numa região de nome Adamawa, cuja capital se chama Ngaundéré, que fica em Camarões. Fiz essa música pro meu povo, para meus ancestrais, que adoraria conhecer — um dia irei! Este álbum está com muitas participações especiais, e nessa Zeca Baleiro participa. A música cresceu muito com sua força, ele foi incrível!

"Ouvirás": é uma história de amor que começa ainda na infância, quando essa criança nem sabia ainda do que realmente se tratava, mas depois, na adolescência ou já adulto, ele entende e ainda acredita que ela ouvirá o seu amor e virá!

"Exê Babá": é uma saudação dirigida a Oxalá (que é um orixá, divindade da criação, da sabedoria e da paz), que significa “O senhor realiza” ou “Obrigado, Pai”. É isso: é uma canção em que cultuo alguns orixás e cito várias saudações para eles. “Exê Babá”!

"Oro Mi Maió": tinha visto Gilberto Bala (que é um grande artista e participa também como percussionista deste trabalho) cantar “Oro mi maió” e, fora ter achado lindo, tive a sensação de muita paz. “Oro mi maió” significa “Deus é o maior” e também é uma forma de se sentir acolhido por Oxum, que é a orixá das águas doces, dos rios e cachoeiras. Esta canção traz realmente muita tranquilidade para nossa alma, pro nosso espírito. Neste caso, eu não poderia deixar de convidar Bala para cantar “Oro mi maió” conosco; achei lindo!

"Verde Chão": sempre que possível eu vou a Carnaíba e fiz essa canção olhando pela janela de um quarto de hotel que ficava em cima de um posto de gasolina que tem lá. O que falo em “Verde Chão” são os cenários que eu enxergava da janela: as belezas, as dificuldades, a força, a (ainda) desigualdade e os desejos... de igualdade, por exemplo! Convidei para cantar comigo esta canção minha filha Ylana, uma grande compositora e cantora, que, com sua sensibilidade, trouxe uma sensação de louvor para a canção. Achei linda a participação dela.

"Abandono": certo dia assisti a uma matéria sobre uma empreiteira que tinha aprovado um projeto para levantar uns edifícios na beira-mar, e suspeitava-se que o projeto tinha sido aprovado na calada da noite etc. Com isso, a população se revoltou, pois alguns tiveram que perder suas casas e quem não iria perder, ao invés de ter todos os benefícios do mar em sua frente, passaria a ter vários edifícios. Aí fiz a canção.

"Raízes": composição que foi feita juntamente com minha Ylana e é uma homenagem direta para meu avô (Teotônio), que infelizmente não conheci. Tanto que a poesia da estrofe foi construída em cima das iniciais do seu nome, e é uma homenagem para meu pai também, pois realmente sinto a presença deles me protegendo. Para esta música convidei o grupo Bongar, pois recentemente estive realizando uns trabalhos com ele, e a presença do grupo trouxe uma sensação de verdadeira proteção para o projeto.

"Aboio de um Vaqueiro": sempre ouvi Jacinto Silva, inclusive cheguei a vê-lo cantando num banquinho , numa festa na casa de Zé da Flauta. Putz! Tive uma aula ali, não saí do lado dele. Jacinto é um artista muito importante pra mim! Há uns 10 anos participei de uma coletânea, um CD que foi gravado no estúdio Muzak, sob o selo Candeeiro. O CD chama-se “Jacinto Silva – No Coração da Gente”. Gravei “Aboio de um Vaqueiro” e quis trazer para esta leitura. Um viva a Jacinto Silva. Convidei Maciel Melo para participar desta canção, um artista que admiro demais e que é um grande parceiro de vários trabalhos. Tinha que ser Maciel nesta canção. Nos divertimos muito, foi maravilhoso!

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Revista NOIZE

Fotos: José de Holanda

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