
No último fim de semana, a cinebiografia Michael estreou como um fenômeno global de bilheteria: mais de US$ 217 milhões arrecadados ao redor do mundo, a maior abertura da história para o gênero. O público foi em massa. A crítica, nem tanto — e acredite, há uma boa razão para isso.
O filme de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) não é exatamente um filme. É um produto aprovado pelo espólio de Michael Jackson, escrito dentro dos limites que os advogados permitiram, e que termina convenientemente em 1988 — anos antes de qualquer coisa inconveniente acontecer. É a história de um gênio sem falhas, de um santo incompreendido.
Para um artista tão contraditório, tão fascinante e tão difícil de encaixar em qualquer narrativa limpa, é quase uma ofensa. Mas vamos por partes.
A Noize já assistiu ao filme e traz cinco fatos sobre Michael:
1. O filme que você está assistindo não é o filme que foi feito
A versão original de Michael usava as acusações de abuso sexual como fio condutor da narrativa — a ideia era apresentá-las logo de início e então, rebatê-las.
Só que, após finalizado, os advogados do espólio perceberam que um acordo judicial com um dos acusadores proibia qualquer menção a ele em qualquer produção audiovisual, segundo o Hollywood Reporter.
O resultado, de acordo com a Variety, foi US$ 15 milhões em refilmagens, um terceiro ato inteiramente reescrito e um filme que termina abruptamente em 1988, seis anos antes de qualquer escândalo. E mesmo assim, o que sobrou ainda não é exatamente um retrato honesto.

2. Michael não tem interesse em Michael Jackson
Existe muito a debater, especular e explorar sobre um artista como ele. E a cinebiografia simplesmente ignora tudo isso.
É chapa branca do início ao fim. O Michael que aparece na tela visita crianças doentes a cada vinte minutos, coleciona animais e nunca demonstra um pensamento complexo sequer. Sem falhas, sem opiniões, sem traços definidos além de "bondoso e incompreendido".
Existe unicamente para superar o trauma causado pelo pai — interpretado por Colman Domingo, que deve garantir mais uma indicação ao Oscar para a sua coleção. Sem agência, sem contradição, sem vida interior. Simplesmente um anjo.
3. Tem macaco de CGI
Não é metáfora. Há cenas que priorizam Bubbles, o chipanzé que Michael adotou, mas que aqui aparece perturbadoramente em CGI, no lugar de desenvolver personagem, contexto ou qualquer coisa que se pareça com drama. Os figurinos parecem saídos de uma peça escolar.
A filmagem da apresentação de "Billie Jean" no especial Motown 25, em 1983, quando Michael Jackson estreou o moonwalk ao vivo, é, no mínimo, constrangedora. É tudo muito apressado, muito pouco.
4. Janet Jackson? Nunca nem vi
Janet era uma superestrela por direito próprio — em 1988 já tinha Control (1986) e Janet Jackson (1982) no currículo. E, mesmo assim, não aparece no filme, assim como Randy e Rebbie. A coincidência, apontada pelo The Film Verdict, é que são exatamente os três irmãos que não assinaram como produtores executivos. La Toya Jackson foi a porta-voz ao avisar que a irmã "declinou gentilmente" do convite para participar do longa.
Os que assinaram, existem no filme. Os que não assinaram, foram apagados. Qualquer um que viu ao menos uma vez o clipe de "Scream" perdido na MTV sabe o tamanho desse apagamento.
5. O advogado de Michael é o segundo protagonista
John Branca, coexecutor do espólio e produtor do filme, é interpretado por Miles Teller e tem mais tempo de tela do que qualquer um dos irmãos Jackson — e até mesmo que o do Quincy Jones, produtor responsável por Thriller (1982).
Sem contar que seu retrato é feito como um aliado heroico e incansável. O fato de ele ser um dos donos do filme não tem nada a ver com isso, claro.
Michael segue em cartaz nos cinemas brasileiros.














