
A história nem sempre é generosa com todos, e alguns nomes acabam se perdendo pelo caminho. É o caso de Tuca, nome artístico de Valeniza Zagni da Silva. Nascida em 1944, a paulistana foi cantora, multi-instrumentista, arranjadora e produtora musical.
Sua trajetória é resgatada no livro Tuca: A cantora lésbica exilada da história, da Coleção Vidas Sequestradas, lançado este ano pela Editora O Sexo das Palavras, que lança luz sobre nomes da comunidade LGBTQIAP+ apagados da memória. Escrita pelo pesquisador musical Renato Gonçalves, a obra mergulha na vida de Tuca e recupera a história de uma artista que o tempo tentou silenciar.
A carreira da artista começou na década de 1960, quando lançou dois de seus três discos: Meu Eu (1965) e o autointitulado Tuca (1968).
Na década seguinte, Tuca se exila na França, onde vive um dos momentos mais interessantes de sua carreira. Lá, ela colaborou com gigantes como a diva da música brasileira Nara Leão, com quem colaborou no álbum Dez Anos Depois (1971). Entre outras funções, a paulistana trabalhou nos arranjos do disco.
Lá, ela também trabalhou com a cantora e compositora Françoise Hardy em um de seus trabalhos mais aclamados, La Question (1971). No disco, Tuca assina a composição da maior parte das faixas ao lado da francesa, além de ter tocado violão nas gravações.
A obra-prima
É também na década de 1970 que Tuca lança o que viria a ser seu trabalho mais celebrado — e uma relíquia para os colecionadores de discos de vinil — Dracula, I Love You (1974). A artista foi uma das primeiras a abordar romances sáficos em suas obras e sofreu com a censura imposta pela ditadura militar. Com as canções “Drácula, I love you”, “Pra você com amor” e “O sorvete”, compostas em parceria com Jeanette Priolli.
Com forte caráter experimental, o disco passeia entre estilos como o folk e a psicodelia, com direito a experimentações eletrônicas. O disco chegou a ser lançado pela gravadora Som Livre, mas a baixa tiragem e a ausência de relançamentos posteriores, aliados à inventividade da artista, fez com que os discos fossem se tornando verdadeiras joias.
Na página do álbum no Discogs, é possível sondar os preços de revenda do bolachão, que partem de 2 mil reais e podem atingir a faixa de R$10 mil. Atualmente não há nenhum exemplar à venda na plataforma, e segundo dados disponibilizados, a última transação envolvendo a obra foi feita neste mês.
O triste fim de Tuca
Ao longo da vida, Tuca também sofreu com os estigmas causados pela gordofobia. A cantora faleceu aos 33 anos, em decorrência de inanição e desnutrição causadas por uma dieta radical e pelo uso de medicamentos para a eliminação de peso. A artista estaria sendo orientada por um guru no processo de emagrecimento.
Com o passar dos anos, a obra de Tuca passou a ser cultuada por colecionadores de discos e pesquisadores de música brasileira. A história dela, apesar de breve, é um retrato da tentativa de apagamento de vozes queer em um dos períodos mais obscuros da nossa história, Sua música, no entanto, sobrevive.














